Um contêiner com frete de US$ 4 mil custava ao importador cerca de R$ 20,1 mil na sexta-feira, 23 de outubro. Na segunda-feira, 26, a mesma conta passou de R$ 22 mil. A diferença veio do câmbio. Depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o dólar à vista fechou o dia em torno de R$ 5,40, com alta de pouco mais de 8%, a maior em um único pregão em 23 anos, segundo o InfoMoney. A PTAX de compra divulgada pelo Banco Central foi a R$ 5,4998 no dia 26, contra R$ 5,0371 no fechamento anterior, uma alta de 9,2%.
Na manhã desta terça-feira, 27, a moeda devolvia parte do salto e era negociada perto de R$ 5,33. O Banco Central programou para o fim da manhã um leilão de rolagem de até US$ 4 bilhões em swap cambial. Mesmo com o alívio, o patamar continua bem acima do da semana passada. Para quem paga frete e despesas portuárias atreladas ao dólar, a alta já entra no custo dos embarques em andamento.
Onde o câmbio entra na conta do frete
No transporte marítimo internacional, praticamente tudo nasce em dólar: o frete básico, os reajustes gerais (GRI), as sobretaxas de pico e de combustível e boa parte das taxas cobradas por armadores e agentes no destino. O efeito em reais depende de quem paga cada parcela e em que data o câmbio é fechado.
- Importação FOB ou FCA: o frete fica com o importador brasileiro e é pago em moeda estrangeira. Quem ainda não travou o câmbio sente a alta inteira.
- Importação CFR ou CIF: o frete vem embutido no preço da mercadoria, mas também em dólar. A conta aparece no fechamento do câmbio da fatura e na base dos tributos.
- Despesas locais: parte das taxas de armadores e agentes, como liberação de documentos e sobrestadia, é referenciada em dólar e convertida pela taxa adotada por cada empresa, em geral a do dia do pagamento. Vale conferir a política de conversão no contrato ou na tabela publicada.
A escolha do Incoterm, que costuma ser discutida pelo preço do frete, passa a ser também uma decisão cambial. A relação entre o frete e o Incoterm define quem carrega esse risco até a chegada da carga.
O AFRMM acompanha o dólar do dia do pagamento
O Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante também sobe com o câmbio. Pelo Decreto 8.257/2014, ele incide à alíquota de 8% sobre o frete na navegação de longo curso. Quando o frete está em moeda estrangeira, a conversão segue a tabela de taxas de câmbio do Sisbacen vigente na data do efetivo pagamento do adicional. No exemplo do contêiner de US$ 4 mil, o AFRMM passaria de cerca de R$ 1.612 para R$ 1.760.
O valor por contêiner é pequeno, mas, num programa de importação com dezenas de embarques por mês, a soma pesa. Para quem tem dúvidas sobre como o tributo funciona, o guia da Efficienza sobre o AFRMM explica a base de cálculo e os casos de suspensão e isenção.
A sobrestadia merece o mesmo cuidado. Um contêiner parado além do free time gera diárias em dólar. Com a moeda mais cara, cada dia de atraso na devolução custa mais em reais. O tema está em discussão na Antaq, que recebe contribuições até 4 de novembro sobre regras de cobrança, mas a conversão cambial continua a cargo de cada armador.
Exportador ganha fôlego, mas o calendário de reajustes segue
Do lado da exportação, o câmbio ajuda. A receita em dólar vale mais em reais, o que compensa parte das sobretaxas que os armadores vêm aplicando. A Hapag-Lloyd, por exemplo, anunciou reajuste geral de US$ 1.000 por contêiner, a partir de 15 de novembro, para cargas que saem da costa leste da América do Sul rumo às Américas. O movimento se soma à rodada de aumentos de outubro, quando armadores subiram o frete da Ásia e passaram a cobrar sobretaxa na exportação.
O ganho do exportador, porém, só se confirma no fechamento do câmbio. Quem paga frete em dólar e recebe em dólar fica naturalmente protegido. Quem contratou o transporte em reais ou tem custos internos que sobem com a moeda, como insumos importados e combustível, precisa refazer a margem.
O próximo marco é a reação do mercado ao longo da semana, com as intervenções do Banco Central e a sinalização do novo mandato sobre a política fiscal. Até que o câmbio se acomode, vale revisar as cotações de frete com validade curta, conferir a data de conversão de cada despesa local e alinhar com o despachante o momento de recolher o AFRMM. Nesses dias de volatilidade, poucos dias de diferença podem pesar no custo.
Fonte: InfoMoney – Dólar dispara 8,2% com reação à reeleição de Lula (26/10/2026); InfoMoney – Dólar hoje (27/10/2026); Banco Central do Brasil – PTAX de 23/10 e 26/10/2026; Decreto nº 8.257/2014 (AFRMM), arts. 6º e 9º; Hapag-Lloyd – GRI da costa leste da América do Sul (15/11/2026).
Autor: Redação Efficienza

