Com o fim do segundo turno no domingo, 25 de outubro, a negociação entre Brasil e Estados Unidos sobre as sobretaxas americanas entra na fase que os dois governos vinham adiando. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, e toma posse para o novo mandato em 5 de janeiro de 2027. Para quem exporta aos EUA, o resultado tira do caminho a principal desculpa para a espera: o calendário eleitoral.
Em 8 de outubro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse que Washington havia aceitado enviar uma proposta formal em três ou quatro semanas, o que coloca o documento no começo de novembro. Na mesma ocasião, o ministro afirmou que o Brasil está disposto a fechar um acordo, mas não fará a primeira oferta, e que a disputa eleitoral ficaria fora da mesa.
Uma proposta que ainda não chegou
O ponto de partida é o grupo de trabalho criado em 30 de setembro, em Milwaukee, numa reunião entre Rosa, o chanceler Mauro Vieira e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer. Como mostramos na época, o grupo de trabalho Brasil-EUA foi pensado para tratar de temas tarifários e não tarifários, mas dependia de um documento americano com o escopo da conversa. Até a manhã desta segunda-feira, esse texto não havia sido divulgado, e nenhum dos dois governos anunciou data para a próxima rodada.
Ou seja: a eleição destrava o calendário, não as tarifas. Nada mudou na fronteira americana desde julho.
Quem paga a conta enquanto isso
Seguem valendo as duas cobranças adicionais da Seção 301 da lei de comércio dos EUA: 25% sobre produtos brasileiros, desde 22 de julho de 2026, e 12,5% da ação sobre trabalho forçado, desde 24 de julho. Somadas, chegam a 37,5% acima da tarifa normal. A medida de 25% tem exceções, como aeronaves civis e partes, itens já sujeitos à Seção 232 (aço, alumínio, cobre, veículos) e algumas matérias-primas, entre elas carne bovina e insumos de suco de laranja. A carga real, portanto, depende do código do produto no HTS americano.
No Sul, o efeito já aparece nos números. A indústria calçadista, por exemplo, viu o saldo da balança de calçados encolher 56% até setembro, com a sobretaxa americana somada à concorrência asiática. Para dar fôlego às empresas atingidas, o governo editou a MP 1.397/2026, que antecipou R$ 6,5 bilhões para crédito a exportadores afetados pelos EUA.
O que pode entrar na mesa
O governo brasileiro tem dito que busca a retirada das sobretaxas e, no mínimo, a ampliação da lista de exceções. Do lado americano, a investigação da Seção 301 citou comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol e terras raras. Qualquer acordo tende a envolver contrapartidas nessas áreas, e é aí que o importador brasileiro pode ser afetado: concessões em tarifas ou em regras para produtos americanos mudariam o custo de alguns insumos vindos dos EUA. Por enquanto, nada disso está definido.
Também não há garantia de alívio rápido. Mesmo que a proposta chegue em novembro, a experiência deste ano mostra que cada etapa leva semanas, e que as medidas podem mudar de forma no caminho. Uma redução negociada provavelmente viria por setor ou por lista de produtos, e não de uma vez para toda a pauta.
Contratos e drawback pedem atenção agora
Para o exportador, a recomendação prudente é tratar os próximos dois meses como período de transição. Contratos com entrega no primeiro trimestre podem incluir uma cláusula que preveja a revisão do preço caso a sobretaxa caia, evitando que todo o ganho de uma eventual redução fique com uma das partes. Vale também conferir, NCM por NCM, quais produtos estão nas exceções, com a ajuda do importador nos EUA.
Quem tem atos concessórios de drawback suspensão vinculados a vendas para os EUA deve olhar os prazos. Este ano, o governo abriu a possibilidade de prorrogação excepcional do drawback afetado pelas tarifas americanas, e o pedido precisa ser feito dentro do prazo do ato.
O próximo marco é a chegada do documento americano. A lista de temas e setores que ele trouxer vai indicar quem pode ter alívio primeiro e o que o Brasil será chamado a ceder. A equipe da Efficienza segue o assunto e pode ajudar a avaliar a exposição de cada produto.
Fonte: SBT News – Governo espera proposta dos EUA sobre tarifaço em novembro (08/10/2026); Metrópoles – resultado do segundo turno, dados do TSE (25/10/2026); MDIC – Reunião presencial Brasil-EUA (30/09/2026); Federal Register – Seção 301 (Brasil).
Autor: Redação Efficienza

