Em dez dias, a doença de Newcastle passou de um caso isolado em uma granja de perus para três focos confirmados no oeste de Santa Catarina, e a lista de mercados com restrição à carne de frango brasileira cresceu na mesma velocidade. Na quarta-feira, 28 de outubro, a África do Sul se juntou ao grupo, ainda que de forma limitada: barrou apenas o produto dos estabelecimentos onde a doença foi registrada.
O primeiro caso foi confirmado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em 18 de outubro, numa criação comercial de perus em Nova Itaberaba. As amostras tinham sido colhidas no fim de setembro, durante vigilância ativa do serviço veterinário estadual, e a confirmação veio do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo. No dia seguinte, a Portaria Mapa nº 962/2026 declarou emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios: Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. Os dois focos seguintes apareceram justamente dentro dessa área, em Coronel Freitas e, anunciado em 27 de outubro, em uma granja comercial de Nova Erechim.
Um mapa de embargos com três escalas
Os certificados sanitários internacionais obrigam o Brasil a suspender, por conta própria, os embarques para os países que exigem status livre de Newcastle. O alcance dessa suspensão, porém, depende do que foi negociado com cada comprador. Segundo o Mapa, China, Arábia Saudita e Chile restringiram apenas o produto de Santa Catarina. México e Malásia suspenderam as compras de todo o Brasil. A África do Sul ficou no recorte mais estreito, os estabelecimentos afetados, e manteve abertos os certificados de carne fresca, ovos férteis e pintinhos de um dia.
Na China, o recorte estadual tira do jogo 14 das 61 plantas brasileiras habilitadas, de acordo com análise do Itaú BBA. O México é o caso que mais pesa na conta nacional: comprou cerca de 171 mil toneladas de frango do Brasil entre janeiro e setembro, perto de 4% dos embarques do país. Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido. Como a coleta das amostras é de 21 de setembro, alguns mercados podem questionar a certificação de lotes produzidos depois dessa data, inclusive cargas que já estão a caminho.
O Sul no centro da conta
Santa Catarina respondeu em 2025 por 22,5% do volume e 25% da receita das exportações brasileiras de frango, com cerca de 1,2 milhão de toneladas e US$ 2,45 bilhões. É também o estado mais dependente do mercado externo: aproximadamente 63% da produção catarinense é exportada, contra 49% no Rio Grande do Sul e 41% no Paraná. Um embargo prolongado tende a empurrar mais produto para o mercado interno, e o Itaú BBA vê pressão sobre os preços no atacado do Sul a partir do primeiro trimestre de 2027, caso as restrições se mantenham.
O Rio Grande do Sul conhece bem esse roteiro. Depois dos casos de Newcastle e de influenza aviária em 2024, o estado ficou cerca de 18 meses fora do mercado chinês, de julho de 2024 a janeiro de 2026. A pressão chega junto com outra frente aberta com o mesmo comprador, a sobretaxa chinesa sobre a carne bovina brasileira, e num momento em que a exportação gaúcha já sente a queda da Argentina.
Regionalização é a aposta, e o relógio sanitário manda
A estratégia do governo é demonstrar que os casos estão contidos e negociar, mercado a mercado, que as restrições fiquem limitadas ao estado ou a um raio em torno dos focos. Pelas regras da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), o país pode recuperar o status de livre da doença 90 dias após o último caso, se nenhum outro for confirmado. Cada novo foco, portanto, tende a empurrar essa data para frente. O Mapa informou ainda que a detecção do vírus em pombos fora da área de emergência não tem relação epidemiológica com as granjas e não configura foco pela definição da OMSA.
Para exportadores de proteína animal e para quem negocia insumos e embalagens com a cadeia avícola, o momento pede alguns cuidados práticos:
- conferir, com o importador e com o despachante, se o destino exige regionalização por estado, por raio ou por estabelecimento, antes de programar novos embarques;
- verificar a data de produção dos lotes em trânsito, já que a referência de 21 de setembro pode pesar na aceitação dos certificados;
- revisar cláusulas de força maior, prazos de embarque e cobertura de seguro em contratos com México e Malásia, onde a suspensão é nacional;
- acompanhar o painel público do Mapa, que atualiza a situação dos focos e das restrições.
O próximo marco é o fim do período de incubação de 21 dias sem novos casos na área de emergência. Até lá, a leitura do mercado deve oscilar a cada boletim do ministério. A equipe da Efficienza segue o tema e pode ajudar exportadores a revisar documentação e cronogramas de embarque.
Fonte: Portaria Mapa nº 962, de 19 de outubro de 2026 (DOU); Reuters, 28/10/2026; CNA, comunicado técnico; Itaú BBA, via Portal do Agronegócio.
Autor: Redação Efficienza




