A Maersk informou nesta sexta-feira, 30 de outubro, que passou a limitar a aceitação de reservas para Khor Fakkan, Fujairah e “destinos selecionados” do alto Golfo Pérsico. Pela nova regra, novos embarques só serão aceitos “conforme a capacidade disponível”, e uma reserva refeita não passa automaticamente para o navio seguinte. O armador atribui a medida à interrupção contínua no Estreito de Ormuz e ao congestionamento nos portos da região.
Parece ajuste operacional, mas toca na saída que vinha sustentando o comércio com os Emirados e seus vizinhos. Khor Fakkan e Fujairah ficam na costa leste dos Emirados, do lado de fora de Ormuz. Com a passagem perigosa, é por ali e por Salalah, em Omã, que a carga desembarca e segue de caminhão ao destino. Com eles também restritos, sobra pouco espaço para improvisar.
A última porta de entrada ficou estreita
Segundo o monitoramento do FMI (PortWatch), apenas 2 navios cruzaram Ormuz em 25 de outubro, contra uma média de 85 por dia antes da crise. Na quinta-feira (29), a Guarda Revolucionária do Irã afirmou que três petroleiros pegaram fogo após atingirem minas, informação divulgada pela mídia estatal iraniana e ainda não confirmada de forma independente. O centro britânico de operações marítimas (UKMTO) registrou um navio em chamas perto da costa de Omã.
A atualização operacional nº 52 da Maersk para o Oriente Médio, de 26 de outubro, já desenhava o desvio: cargas para Kuwait, Iraque, Catar, Bahrein e Emirados fazem transbordo em Salalah e Khor Fakkan, seguem por terra até Sharjah e, dali, entram na rede de navios alimentadores dentro do Golfo. O armador deixa claro que essa rota não passa por Jeddah.
Quanto custa contornar Ormuz
A conta do desvio já vinha embutida no frete. Na mesma atualização, a Maersk lista uma tarifa emergencial por contêiner para Iraque, Kuwait, Arábia Saudita (Dammam e Jubail), Bahrein, Catar, Emirados e Omã (exceto Salalah):
- US$ 1.800 por contêiner seco de 20 pés;
- US$ 3.000 por contêiner seco de 40 pés;
- US$ 3.800 por contêiner refrigerado, especial ou de carga perigosa;
- mais US$ 1.000 por contêiner quando o navio atravessar Ormuz;
- armazenagem em trânsito incluída por 14 dias e, a partir do 15º dia, US$ 25 por TEU/dia, além de tomada e monitoramento de reefer.
Para o contêiner refrigerado, o cenário é ainda mais apertado. A Maersk mantém suspensas as reservas de reefer para Iraque, Kuwait, Catar, Bahrein, Dammam, Al Jubail e King Abdullah, na Arábia Saudita, e para a maior parte dos Emirados. Khor Fakkan aparecia como uma das poucas exceções abertas, só na importação. É exatamente esse porto que agora entra no regime de “conforme a capacidade”. Outros armadores mantêm sobretaxas de risco de guerra para o Golfo desde março, como a Hapag-Lloyd.
Frango e carne do Sul na linha de frente
O Golfo é destino relevante para a proteína animal brasileira, e boa parte dela sai dos portos do Sul em contêineres refrigerados. Segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, as vendas do agronegócio aos países do Golfo somaram US$ 3,852 bilhões de janeiro a agosto, alta de 2,19%. Nos 22 países árabes, o frango rendeu US$ 2,169 bilhões no período, e a Arábia Saudita sozinha comprou US$ 697,83 milhões. A carne bovina chegou a US$ 1,177 bilhão, com alta de 20,23%. Em setembro, a Câmara já registrava cargas desembarcando no Golfo de Omã e no Mar Arábico para seguir por rodovia, justamente o caminho que agora estreitou.
Para frigoríficos do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que já lidam com os embargos ligados aos focos de Newcastle em Santa Catarina, a restrição soma mais uma variável: prazo de entrega incerto para uma carga com validade e exigências sanitárias de destino. E, com o dólar mais alto depois da eleição, cada tarifa emergencial em moeda americana pesa mais na planilha em reais.
Alguns pontos merecem checagem antes do próximo embarque. Quem vende em CFR ou CIF arca com o frete e, em regra, com as sobretaxas; vale confirmar com o armador se a reserva para o Golfo está aceita e por qual porto a carga vai entrar. Cartas de crédito com prazo de embarque curto podem precisar de alteração. E o seguro de carga padrão costuma excluir riscos de guerra, que dependem de cláusula própria. Vale reler o contrato com o comprador antes que o contêiner fique parado num pátio de transbordo.
O cenário se soma aos efeitos dos conflitos na logística internacional que vêm sendo sentidos desde março. A Maersk diz que as medidas são temporárias e revistas conforme a situação, sem data para acabar. O próximo sinal a acompanhar é se outros armadores seguem o mesmo caminho em Khor Fakkan, o que reduziria ainda mais as alternativas para quem exporta ao Golfo. A Efficienza acompanha os avisos dos armadores para orientar os embarques ao Oriente Médio.
Fonte: Maersk – Temporary Booking Restrictions: Khor Fakkan, Fujairah and Selected Upper Gulf Destinations (30/10/2026); Maersk – Middle East Operational Update 52 (26/10/2026); Straits Daily Brief (29/10/2026); Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, via Click Petróleo e Gás (24/09/2026).
Autor: Redação Efficienza


